Brasília de cor e vida
Voltar

Brasília de cor e vida

Matheus Rezende

Entre curvas e retas, satélites e piloto, num quadrado de tortos galhos, em meio às cortinas de fumaça e um azul laranja dançante ao céu; é assim, Brasília, onde Oscar fez com que o espaço largo, do lago à terra soprada pelo cerrado, em um branco palco de retas funcionais e curvas inspiradas no vigor da brasilidade, fosse tomado por pulsões, sonhos e tesões, pela massa mista, respirando constante a fusão do Brasil e fazendo desse plano uma dimensão de orgasmos da arte, cultura, força coletiva e vida vivida, em sua intensidade e explosão.

Mas como um teatro latente ao sistema; corrosivo, reativo, covarde e ao reflexo da face dos pilotos, que ali, na casa do povo se deleitam, se dispara um discurso higiênico, branco e cheio de medo, e que usam da justificativa protetora, hierárquica e ordeira, num recorte do conflituoso casamento bauhaus/brasilidade, somente a parte que convém as métricas do sistema,  ou seja, o que mais os agrada veicular é a fala de uma Brasília “limpa”, cinza, branca, intocável, de brilho opaco e monocromático, de beleza distante, passada, resumidas as retas e curvas somente a inspiração e não o eterno vivo, deixadas ao campo de Platão, do áspero concreto, das belas palavras e exposições recheadas de falsas nostalgias, e por fim, um padrão ideal, ideal para os poucos.

A Brasília de Oscar, já foi deixada e engolimos o novo discurso, a mentalidade tão racional, geométrica e platônica já nos permeia não só de hoje, e não é culpa de nós de maneira situacional ou singular, mas sim de algo maior , que já se manifesta nas vísceras da história.

Nossa querida cidade, guarda tristes fins, mas por outro lado, sob este céu e no calor das paixões, nossa Brasília resiste, entre aquele papo de bar e a chuva que dança com o sol, na periferia onde a cena se faz e as ruas da Tailândia (Taguatinga + Ceilândia), do Mercado Sul ao Subdulcina, do Conic à UnB, dos coletivos ao movimento estudantil, das pipas voando ao correr descalço no quadradão, da música tocada no parque à batalha de rap, do Pistão à Comercial, de Sobradinho à Planaltina, do Gama à Santa Maria, do Recanto ao Riacho, do Bandeirante à “São Sebas”, de Brazlândia ao até os de fora do quadrado, mas que pela gente, nosso quadrado é mais bonito quando imperfeito é.

Sim, Brasília ainda se faz viva, cheia de esperança e força, repleta de sorrisos, brindes e gritos, vontades, energia e gente. Onde a vida é crua e não idealizada,  onde nossa potência se faz motor e não escape, onde a beleza é explosiva e não planejada, e se for planejada, que seja a de desejar a eternidade do instante ou daquele amor sentado na mesa ao lado.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+